
Peter Dazeley
Admiro os que, com material tão bruto, conseguem
extrair profunda poesia.
Patativa do Assaré, poeta popular nordestino morto
com mais de 90 anos, tinha esse ofício.
Sou matuto sertanejo, Daquele matuto pobre Que não tem gado nem queijo Nem oro, prata, nem cobre Sou sertanejo rocêro, Eu trabalho o dia intero, Que seja inverno ou verão Minhas mão é calejada, Minha péia é bronzeada Da quintura do sertão
Por força da natureza, Sou poeta nordestino, Porém só canto a pobreza Do meu mundo pequenino Eu não sei cantá as gulora, Também não canto as vitora Dos herói com seus brazão, Nem o má com suas água... Só sei cantá minhas mágua E as mágua de meus irmão
Canto a vida desta gente Que trabaia inté morrê Sorrindo, alegre e contente, Sem dá fé do padecê, Desta gente sem leitura, Que, mesmo na desventura, Se sente alegre e feliz, Sem nada sabê na terra, Sem sabê se existe guerra De país contra país
Cabôco que não cubiça Riqueza nem posição E nem aceita a maliça Morá no seu coração Cabôco que, nesta vida, Além da sua comida, O que mais estima e qué, É a paz, a honra e o brio, O carinho de seus fio, E a bondade da muié
E assim, na sua paleja, Com a famia que tem, Não inveja nem deseja O gozo de ninguém Mas, por infelicidade Contra seu gosto e vontade, Munta vez, o pobre vê A muié morrê de parto, Gemendo dentro de um quarto, Sem ninguém lhe socorrê
Morre aquela criatura, Depois, a pobre coitada, No rumo da sepultura, Vai numa rede imbruiada Um adjunto de gente Uns atrás, ôtros na frente Num apressado rojão, Quando um sorta, o ôtro pega: É assim que se carrega Morto pobre, no sertão Fica, o viúvo, coitado! De arma triste e dilurida, Para sempre separado Do mió de sua vida, Mas, porém, não percebeu Que a sua muié morreu, Só por fartá um dotô E, como nada conhece, Diz, rezando a sua prece: Foi Deus que diterminou!
Pensando assim desta forma, Resignado, padece; Paciente, se conforma Com as coisa que acontece Coitado! Ignora tudo, Pois ele não tem estudo, Também não tem assistença E por nada conhecê Em tudo o camponês vê O dedo da providença
(Vida sertaneja, Patativa do Assaré)
Escrito por Ademir às 20h47
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