O asfalto foi um dos marcos da chegada do progresso em minha
época de menino. Até então a rua em que morávamos era o pó
ou a lama, dependendo das vontades do tempo. Isso tinha lá seu
charme, principalmente durante as festas dos santos de junho.
As crianças assavam batatas nas fogueiras durante a noite, sem sal
ou qualquer outro tempero.
Em dias de chuva, esperávamos pacientes o final do aguaceiro e
então íamos para a rua. As meninas do barro faziam bolinhos para
filhos imaginários. Os meninos atiravam bolotas de terra molhada
nas paredes brancas da fábrica que ocupava um quarteirão inteiro.
Depois vinha o sol, secava tudo. As bolas caíam, esfarelando-se
no chão de terra. Ao pó voltarás.
E um dia chegaram umas tubulações imensas de concreto (que
serviram durante um tempo como esconderijo em nossas
brincadeiras), máquinas barulhentas, o cheiro enjoativo do
piche fervente.
Tudo virou asfalto. As paredes da fábrica não guardavam mais a
lembrança das marcas do barro arremessado.
Certa tarde, vimos um bêbado ferido. Não soubemos se tinha
caído, apanhado de alguém. Escorando-se na parede caiada da
fábrica, deixou lá a palma de uma das mãos, como um carimbo
de sangue.
Os dedos muito abertos, como os de quem procura algo em que
agarrar e não encontra, lá ficaram, marcados na cal, durante muito
tempo, desbotando aos poucos, do mesmo modo como o barro
havia desbotado, o sangue perdendo a cor, tal qual misterioso
fragmento do santo sudário.