TELETRANSPORTE

Os trens no Brasil transportam minérios. Houve tempo em que
levavam pessoas.
Aquela luz muito alaranjada do sol, que aparece apenas de vez
em quando em finais de tarde e que, esmaecendo aos poucos,
nas casas, nos carros, nas pessoas, dá um significado
sobrenatural a tudo, costuma me levar de volta às férias de
infância, passadas no interior. A sinestesia me transporta.
Algo suspenso no ar, com sua gravidade tão própria...
Íamos de trem, e, se chegávamos ainda cedo, o friozinho
enganador que nos envolvia era logo sorvido pela baforada
quente do antes do meio-dia. Se à noite, sentíamos o cheiro
das cascas de arroz vindo das fábricas de beneficiamento.
Foram os fins de tarde, com aquela cor de misterioso mundo,
que mais impressionaram meus olhos de menino.
A lembrança reaviva a luz dourada daquelas tardes antigas,
que atravessava os vidros da cozinha da casa dos avós e tios
e ia formar filigranas, como num caleidoscópio, na superfície
dos copos. O café e o leite tinham sabor diferente. O creme dos
pães tinha sabor diferente. O açúcar cristal, como areia doce no
meio dos dentes, virava brinquedo em boca de criança.
Há cheiros, cores e sabores que só existem na casa dos outros.
A hora de dormir era ansiosamente esperada. Os colchões
recendiam a palha seca. A cabeça no travesseiro sentia a
suavidade das penas de aves desconhecidas.
A janela do quarto, iluminada por fora pela lâmpada fraca
do poste da rua, se transmutava numa tênue moldura flutuando
quadrada na escuridão.
E, não muito longe, ouvia-se o trem de passageiros parando na
estação e depois o apito desaparecendo, cortando a noite.
Dopado por tantas sensações, eu dormia feliz.
Escrito por Ademir às 10h04
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