A QUEDA

Hans Neleman
Sentia-me à vontade em tudo, isso é verdade, mas
ao mesmo tempo nada me satisfazia. Cada alegria
fazia-me desejar outra. Ia de festa em festa. Acontecia-me
dançar noites a fio, cada vez mais louco com os seres e
com a vida. Por vezes, já bastante tarde, nessas noites em
que a dança, o álcool leve, o meu desenfreamento, o violento
abandono de cada qual, me lançavam para um arroubo ao mesmo
tempo lasso e pleno, parecia-me, no extremo da fadiga e no lapso
de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do
mundo. Mas a fadiga desaparecia no dia seguinte e, com ela, o
segredo; e eu atirava-me outra vez.
Albert Camus
Escrito por Ademir às 20h25
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