"No cinema, de nada adianta ter uma boa história a contar
se não se sabe como fazer. Por sua vez, histórias simples,
mas bem contadas, rendem filmes sensacionais. O longa
russo O retorno, por exemplo, se encaixa nesta segunda
categoria."
Assim, a jornalista Angélica Bito inicia seu parecer sobre
este filme.
O que leva um pai a se afastar da família durante doze anos
e a reaparecer como se nada tivesse acontecido?
Mais estranha a reação da mulher, que aceita a nova condição
com resignação.
Na verdade, não recebemos do diretor nenhuma pista a respeito
daquilo que move a vida de seus personagens.
Falando em personagens, os mais fortes não são nem o pai nem
a mãe, mas os filhos, de doze e quinze anos. Obrigados pelo pai
a acompanharem-no durante uma pescaria de dois, três dias, os
rapazes, cada vez mais, adentram um mundo selvagem,
representado pela natureza exuberante e pelos modos bruscos
do pai.O mais velho, ao tentar resgatar o amor (será que de fato
algum dia existiu?) do pai mostra-se submisso. O caçula, ao
contrário, cada vez mais arredio, não entende as atitudes do
homem a quem é obrigado chamar de "papai".
Ivan Dobronravov, que faz o filho mais novo, chega a assustar
pelo talento fenomenal. São dele as cenas mais emocionantes,
mais vigorosas.
O cartaz do filme, além de belíssimo, traduz com perfeição o
momento preciso da passagem dos garotos para outra etapa,
talvez mais dura, da vida.
Um filme que não se deve perder e que fica para sempre.