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ESTAR SÓ

             

               Patrick Ryan

 
É exatamente porque não há solidão que dizes
que solidão. Imagina que eras o único homem
no universo. Imagina que nascias de uma árvore,
ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que
não há árvores, nem astros, nem nada com que te
confrontes: supõe que o universo é só o vazio e
que tu nascias no meio desse vazio, sem nada
para te confrontares. Como dizeres "eu estou
sozinho"? Para pensares em "eu" e em "sozinho"
tinhas de pensar em "tu" e em "companhia".
Só há solidão porque vivemos com os outros...
 
Vergílio Ferreira,  Estrela polar


Escrito por Ademir às 19h56
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RECORDAR

 

Memória, René Magritte

 
 
Os meus pensamentos foram-se afastando de mim,
mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os
tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados,
enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui
conservando, na minha pequena luta contra a vida.
Só vivi ontem.
Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja,
selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor.
Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou
estendido à sua sombra, recordando.
De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de
caminhantes que, chegados como eu a este caminho,
com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções
e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter,
que falaram para se calar, que abriram os olhos atônitos ante
a festa das estrelas para os fechar e recordar...
Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos
florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio
do tempo que tremula sobre as minhas atitudes.
Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos
tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão
de se submergir as minhas velhas mãos solitárias...
 
Pablo Neruda, Nasci para nascer


Escrito por Ademir às 18h12
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FAZ TANTO QUE NÃO VIAJO

 
 
Faz tanto que não viajo!
Ainda agora no caminho,
pensei: Se este vento chama,
se esta noite me arrebata,
-- faz tanto que não viajo! --
vou sozinho.
 
Vou sozinho contra o vento.
Este vento -- sal e areia --
esta noite, este lamento
que é como um lábio sedento
suplicando lua cheia.
 
Vou à antiga e delicada
cidade do vale. Vou
à cidade levantada
na planície amargurada
onde a morte me encontrou.
 
Faz tanto que não viajo
que nem sei dizer adeus.
Vou sozinho contra a noite.
Vou sozinho mas carrego
-- como as pupilas de um cego --
sítios, nuvens, sonhos meus...
 
De tudo que me contempla
darei lembranças a Deus.
 
Alphonsus de Guimaraens Filho
 
 


Escrito por Ademir às 18h45
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O QUE A ALMA NÃO DIZ

      

        Photodisc Collection

 
 
Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo
é guardado até a morte delas. E são guardadas,
mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos
abismos nos expomos, todos doloridos, num lance
de angústia, em face dos amigos mais queridos --
porque as palavras que as poderiam traduzir seriam
ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais
perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis
de serem ditas. A própria Natureza as encerrou, não
permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons
para as exprimir -- apenas sons para as caricaturar.
E como essas idéias-entranhas são as coisas que mais
estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar.
Daqui os "isolados"  que todos nós, os homens, somos.
Duas almas que se compreendam inteiramente, que se
conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas
vive, não existem. Nem poderiam existir. No dia em que
se compreendessem totalmente -- ó ideal dos amorosos! --
eu tenho a certeza que se fundiriam numa só.
E os corpos morreriam.
 
Mário de Sá-Carneiro, Cartas a Fernando Pessoa


Escrito por Ademir às 20h23
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O SONHO DE SHIRLEY

 
Há aqueles filmes que fazem jus à magia do cinema: 
agarram-se a nós assim que saímos da sala escura e
nos acompanham vida afora.
Somente duas vezes vi um filme ser aplaudido ao final
da projeção, numa sessão normal, fora de qualquer
mostra ou festival. Um desses filmes foi Shirley Valentine (89),
que, desde então, ficou naquele espaço da memória
reservado aos momentos que guardamos com carinho.
Inesquecível a cena em que Shirley,  realizando o sonho de
conhecer a Grécia, senta-se à beira-mar e pede uma garrafa
de vinho para esperar o pôr-do-sol.
Fim de tarde. Com o rosto iluminado pelo crepúsculo, Shirley
se dá conta de que, enquanto sonho, aquele momento era mais
saboroso; que, em vez de serena e linda, sente-se tola e
extremamente velha. Revê a vida sem cor que leva em Londres
com o marido egoísta, o casamento que, em algum momento,
começou a fracassar, a mulher que era e que se anulou para dar
lugar à dona de casa que só tem as paredes e as panelas
como ouvintes.
Agora já é noite e Shirley continua com seus pensamentos.
Apesar de tocante em vários momentos, o filme é também muito
divertido, graças à maravilhosa interpretação da britânica Pauline
Collins.
O final do filme, também à beira do mar grego, também durante
um crepúsculo, emociona. 
Como a lembrar Heráclito, que disse não ser possível banhar-se
no mesmo rio duas vezes, o destino parece dizer que há uma
chance para o sonho de Shirley.


Escrito por Ademir às 18h59
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