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A JUSTA MEDIDA

As necessidades do corpo são a justa medida do que
cada um de nós deve possuir. Exemplo: o pé só exige
um sapato à sua medida. Se assim considerares as coisas,
respeitarás em tudo quanto faças as devidas proporções.
Se ultrapassares estas proporções, serás, por tal maneira
de agir, necessariamente desregrado como se um precipício
te seduzisse. O sapato é exemplo ainda deste estado de coisas:
se fores para além do que o teu pé necessita, não tardará muito
que anseies por um sapato dourado, por um sapato de púrpura
depois, finalmente por um sapato bordado. Uma vez que se
menospreze a justa medida, deixa de haver qualquer limite que
justos torne os nossos propósitos.
 
Epicteto (50-125), em Manual


Escrito por Ademir às 18h53
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FIM DO ANO


Pete Atkinson
 
Fim de ano... Acabo de me lembrar de uma
música muito bonita do Swami e do Wisnik.
Aí vai...


Você foi sempre tão sutil
que demorou pra entender
eu dei sinal
você não viu
e nem ouviu meu canto

até a brisa insistiu
pra que você quisesse ver
você tardou
se distraiu
eu precisava tanto

todo encanto da tarde é teu
teu perfume me envolveu
de tão suave que ninguém o tem
de tão suave que não é de ninguém

mas foi você que pressentiu
o que cansava de saber
e afinal
me descobriu
a tua vista mansa

assim a flor entreabriu
o que guardava de prazer
e entregou
me consumiu
na onda que não cansa

você sabe e agora eu sei
vi o mar e eu mergulhei
já era quase o fim do ano, amor
já era quase o oceano


(Swami Junior — Zé Miguel Wisnik)



Escrito por Ademir às 12h25
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PÁSSARO ENCANTADO


George Logan

Era uma vez uma menina que tinha como seu melhor amigo,
um Pássaro Encantado. Ele era encantado por duas razões.
Primeiro porque ele não vivia em gaiolas. Vivia solto.
Vinha quando queria. Vinha porque amava. Segundo, porque
sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes,
as cores dos lugares por onde tinha voado. Certa vez
voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou
histórias de montanhas cobertas de neve. Outra vez suas
penas estavam vermelhas, e ele contou histórias de desertos
incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando
estavam juntos. Mas sempre chegava o momento quando o
pássaro dizia: "Tenho de partir." A menina chorava e
implorava: "Por favor não vá, fico tão triste. Terei saudades
e vou chorar..."
"Eu também terei saudades", dizia o pássaro. "Eu também vou
chorar. Mas vou lhe contar um segredo: eu só sou encantado
por causa da saudade que faz com que as minhas penas fiquem
bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. E eu deixarei de
ser o Pássaro Encantado e você deixará de me amar."
E partia. A menina sozinha, chorava. E foi numa noite
de saudade que ela teve a idéia: "Se o Pássaro não puder
partir, ele ficará. Se ele ficar, seremos felizes para sempre.
E para ele não partir basta que eu o prenda numa gaiola."
Assim aconteceu. A menina comprou uma gaiola de prata,
a mais linda.
Quando o pássaro voltou eles se abraçaram, ele contou
histórias e adormeceu. A menina, aproveitando-se do seu sono,
o engaiolou. Quando o pássaro acordou, deu um grito de dor.
"Ah! Menina...que é isso que você fez? Quebrou-se o encanto.
Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das histórias.
Sem a saudade o amor irá embora..."
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar.
Mas não foi isso que aconteceu. Caíram suas plumas e o penacho.
Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se
num cinzento triste.
E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu.
Não era aquele o pássaro que ela amava. E de noite chorava
pensando naquilo que havia feito com seu amigo...
Até que não mais agüentou. Abriu a porta da gaiola.
"Pode ir, Pássaro", ela disse." Volte quando você quiser..."
"Obrigado, Menina", disse o Pássaro. "Irei e voltarei quando ficar
encantado de novo. E você sabe: ficarei encantado de novo quando
a saudade voltar dentro de mim e dentro de você!

Rubem Alves


 



Escrito por Ademir às 10h39
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TEMPO DE SEMEAR

 
Tudo aquilo que vai,
volta sempre transformado...
Todo mato pode um dia
apresentar-se em bela flor!


Escrito por Ademir às 14h42
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DA SAUDADE

Beata Szpura

A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos
de solidão e tristeza, mas, iluminada pela memória,
ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett
a definiu como "delicioso pungir de acerbo espinho",
estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos
na fórmula feliz de um verso romântico.
Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e
distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os
instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e
distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro já
o transforma em passado. A vida é constante perder.
A vida é, pois, uma constante saudade.
Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar,
possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem,
como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua
essência de eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar
permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é,
paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.

Cecília Meirelles



Escrito por Ademir às 15h22
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