PÁSSARO ENCANTADO
 George Logan
Era uma vez uma menina que tinha como seu melhor amigo, um Pássaro Encantado. Ele era encantado por duas razões. Primeiro porque ele não vivia em gaiolas. Vivia solto. Vinha quando queria. Vinha porque amava. Segundo, porque sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha voado. Certa vez voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou histórias de montanhas cobertas de neve. Outra vez suas penas estavam vermelhas, e ele contou histórias de desertos incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando estavam juntos. Mas sempre chegava o momento quando o pássaro dizia: "Tenho de partir." A menina chorava e implorava: "Por favor não vá, fico tão triste. Terei saudades
e vou chorar..." "Eu também terei saudades", dizia o pássaro. "Eu também vou
chorar. Mas vou lhe contar um segredo: eu só sou encantado
por causa da saudade que faz com que as minhas penas fiquem
bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. E eu deixarei de
ser o Pássaro Encantado e você deixará de me amar." E partia. A menina sozinha, chorava. E foi numa noite de saudade que ela teve a idéia: "Se o Pássaro não puder partir, ele ficará. Se ele ficar, seremos felizes para sempre.
E para ele não partir basta que eu o prenda numa gaiola." Assim aconteceu. A menina comprou uma gaiola de prata,
a mais linda.
Quando o pássaro voltou eles se abraçaram, ele contou histórias e adormeceu. A menina, aproveitando-se do seu sono, o engaiolou. Quando o pássaro acordou, deu um grito de dor. "Ah! Menina...que é isso que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das histórias. Sem a saudade o amor irá embora..." A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar. Mas não foi isso que aconteceu. Caíram suas plumas e o penacho.
Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se
num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar. Também a menina se entristeceu. Não era aquele o pássaro que ela amava. E de noite chorava pensando naquilo que havia feito com seu amigo... Até que não mais agüentou. Abriu a porta da gaiola. "Pode ir, Pássaro", ela disse." Volte quando você quiser..." "Obrigado, Menina", disse o Pássaro. "Irei e voltarei quando ficar
encantado de novo. E você sabe: ficarei encantado de novo quando
a saudade voltar dentro de mim e dentro de você!
Rubem Alves
Escrito por Ademir às 10h39
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