A CASA ABANDONADA

Antes mesmo de abrir o pequeno portão, percebeu que as janelas
da sala estavam sem as cortinas.
No jardim foi tomada por sensação que, por pouco, não a lançou à terra.
A grama, alta e irregular, quase encobria as margaridas secas, com as
quais não se podia mais brincar de bem-me-quer.
Forçou a porta da entrada e não precisou de muito esforço para
conseguir abri-la.
Lá dentro, viu-se cercada de uma luminosidade que a apavorou.
O sol atravessava os vidros sujos e quase opacos das janelas e
iam escorrer pelas paredes úmidas.
No quarto também nada encontrou além da escuridão invadida por
pequenos feixes de luz que passavam pelas persianas parcialmente
apodrecidas.
Foi na cozinha que sentiu o peso maior de tanta solidão: na pia imunda
um copo jazia com o fundo de café solidificado. Era a única pista da
passagem de alguém por aquele mundo.
Saiu da casa e aquele mesmo sol sobrenatural a invadiu.
Um pouco tonta, deitou-se naquela grama áspera e densa e sentiu o
cheiro do mato seco. A um canto do jardim uma poça de água estagnada
brilhava como se alguém estivesse fazendo brincadeira com um espelho.
Caules de plantas mortas projetavam-se do lodo na procura inútil de ar.
Levantou-se, saiu pelo portão e foi caminhando pela calçada.
Nem olhou para trás, pois se fizesse isso teria certeza de que as duas
janelas da casa, dois olhos, estariam rindo dela.
As nuvens passavam devagar. Muito devagar.
Escrito por Ademir às 20h13
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