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A CASA ABANDONADA

 

Antes mesmo de abrir o pequeno portão, percebeu que as janelas
da sala estavam sem as cortinas.
No jardim foi tomada por sensação que, por pouco, não a lançou à terra.
A grama, alta e irregular, quase encobria as margaridas secas, com as
quais não se podia mais brincar de bem-me-quer.
Forçou a porta da entrada e não precisou de muito esforço para
conseguir abri-la.
Lá dentro, viu-se cercada de uma luminosidade que a apavorou.
O sol atravessava os vidros sujos e quase opacos das janelas e
iam escorrer pelas paredes úmidas.
No quarto também nada encontrou além da escuridão invadida por
pequenos feixes de luz que passavam pelas persianas parcialmente
apodrecidas.
Foi na cozinha que sentiu o peso maior de tanta solidão: na pia imunda
um copo jazia com o fundo de café solidificado. Era a única pista da
passagem de alguém por aquele mundo.
Saiu da casa e aquele mesmo sol sobrenatural a invadiu.
Um pouco tonta, deitou-se naquela grama áspera e densa e sentiu o
cheiro do mato seco. A um canto do jardim uma poça de água estagnada
brilhava como se alguém estivesse fazendo brincadeira com um espelho.
Caules de plantas mortas projetavam-se do lodo na procura inútil de ar.
Levantou-se, saiu pelo portão e foi caminhando pela calçada.
Nem olhou para trás, pois se fizesse isso teria certeza de que as duas
janelas da casa, dois olhos, estariam rindo dela.
As nuvens passavam devagar. Muito devagar.


Escrito por Ademir às 20h13
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O ASSOMBRADO

 
Tempo, tempo, tempo...
Por que essa minha preocupação
com aquilo que se esvai?
Com aquilo que chega?
Essa semana vi uma lua embaçada
e nem por isso choveu.
O que tenho de fazer, isso sim,
é parar de procurar prenúncios...


Escrito por Ademir às 09h31
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O QUE É O ETERNO?


Kamil Vojnar

Eterno é tudo aquilo que vive uma
fração de segundo, mas com tamanha
intensidade que se petrifica e nenhuma
força o resgata.


(Carlos Drummond de Andrade)

Escrito por Ademir às 15h49
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DE VOLTA À FLORESTA

Odilon Redon

Um sonho me persegue.
Nele, acordo cercado não pelo escuro do quarto,
mas pelo negro úmido e penetrante de uma floresta.
Sinto frio, puxo as cobertas, mas estas, na inverossimilhança
do sonho, adquirem outra natureza, que não sei qual é.
Sento-me na cama. Não vejo a floresta, mas a sinto.
Há muito tempo, um outro sonho passado na floresta
marcou-me para sempre.
Fazia parte de um grupo que andava numa floresta à noite.
Todos nós vestíamos roupas marrons com capuzes e
carregávamos archotes que brilhavam na escuridão.
As árvores não passavam de sombras e nada se ouvia.
E continuamos a caminhada, em fila indiana, até chegarnos
a uma caverna. Lá dentro, nos deparamos com pequenos
lagos que cintilavam à luz do fogo que levávamos.
Quem sonhava era uma criança, mas quem entrou na caverna
com os outros era já um adulto.
E o que marcou definitivamente o sonho foi ver que, nas
paredes rochosas, havia belíssimos afrescos, escondidos ora
pela escuridão, ora revelados em tons suaves pelo fogo brando
que tremeluzia e fazia a pedra pulsar.
Vá tentar explicar isso...
É esse, talvez, o único sonho jamais de todo esquecido.


Escrito por Ademir às 10h25
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JARDIM TEXTIL, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, Cinema e vídeo
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