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RESPIRO

Vale muito a pena ver Respiro (ainda em cartaz nos cinemas).
Vale pelas belas cenas da Sicília, pelos bons intérpretes adolescentes,
pela Valeria Golino, no melhor papel de sua carreira.
 
 
O filme nos conta a história de Grazia (Valeria), que, de  musa da vila
onde mora, passa a ser vista como prostituta e de prostituta a santa.
Nada mais italiano do que isso.
A seqüência final é belíssima, difícil de esquecer.
Veja o trailer em
 
 


Escrito por Ademir às 19h37
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PARA ONDE?

Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei para onde ir
Eu não sei por que moro ali
Eu não sei por que estou
Eu não sei para onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei para onde o mundo vai
Neste breu vou sem rumo
Só sei que o mundo vai de lá pra cá
Andando por ali
Por acolá
Querendo ver um sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem
 
(trecho da música Onde ir, de Vanessa da Mata)


Escrito por Ademir às 12h14
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O TEMPO

Da memória restam o insondável e
os vestígios secos como o cerne,
coração da madeira.
Fósseis de fogueira à procura de fagulha.
E na pele, os sulcos de uma história. 
 
São João Batista e São Jerônimo, de Caravaggio.


Escrito por Ademir às 19h08
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O PONTO

Não sei qual é
        minha pedra,
nem sei qual
        é minha cor.
Não sei o que dizem 
arcanos ou cartas,
nem o que há no lado escuro
da lua.
Não sigo oráculos.
Configuro meu céu
e reinvento meu dia.
O mundo é círculo,
e se me deixo escapar
me reencontro
em outro ponto.
 


Escrito por Ademir às 20h17
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ENCONTRO

Existem imagens que não nos abandonam.
Esta foto é de 1998, tirada num final de tarde,
de um mirante improvisado na Ilha do Caju, Maranhão.
Uma ilha especial! Mangues, dunas, praias de rio, praias de mar...
Sombras de cajueiros, praias sem sombras. O vento mudando as
formas da areia. Cristais de sal deixados por cheias antigas
brilhando na terra.
À tarde, céu explodindo em tons de fogo. À noite, céu estrelado
como nunca vi. Parecia querer desabar. Quase sufocava.
E, nele, satélites artificiais em suas rotas calculadas por mãos tão
humanas, tão erráticas, fazendo companhia a estrelas já mortas.
Foi na Ilha do Caju que, estando tão sozinho comigo mesmo, 
pude me conhecer um pouco mais.


Escrito por Ademir às 11h46
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SONETO A QUATRO MÃOS

(O beijo, Rodin)

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado.
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

(Paulo Mendes Campos e Vinícius de Moraes)



Escrito por Ademir às 11h00
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SAMWAAD

Hoje fui ver Samwaad pela terceira vez.
E sempre com a mesma emoção.
É um belo trabalho de Ivaldo Bertazzo com 55 jovens de sete ONGs
paulistanas. Ele traça uma ponte entre Brasil e Índia de maneira
poética e contagiante, seja por meio da coreografia, seja por
meio da música. A parte indiana da trilha é baseada nas escrituras
sagradas do hinduísmo; o Brasil comparece com a forte percussão do
samba e com a delicadeza do chorinho. Às vezes tudo se mistura
na grande festa que é a diversidade cultural.
É um espetáculo sem fronteiras, mântrico e hipnotizante,
do qual ninguém sai indiferente.
 
 


Escrito por Ademir às 22h42
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SONATINA LUNAR

©National Geographic

Os amigos de Mário Quintana diziam que ele era o poeta
das coisas simples. E não são justamente essas que
verdadeiramente importam?
 
 
Os padeiros da lua
derrubam farinha
na noite retinta
Quem ganha? É o chão
 
que se pinta e repinta
de giz e carvão.
 
Rendilha de aranha
na face encantada,
moedinha de prata
escondida na mão,
minh'alma menina
fugiu para a mata
 
Meu coração
bate sozinho
no velho moinho
da solidão.
 
Até eu me fujo...
 
Eu sou o corujo,
olhar enorme
que nunca dorme.
Nana, nana,
nina, nina
alma menina...
E sonha comigo
por alguns instantes,
onde estejas tu...
Sonha comigo
como eu era dantes!
 
Os padeiros da lua
derrubam farinha...
O chão se repinta
de giz e carvão...
 
Sonha,
menina,
na mata assombrada
enquanto o moinho vai rangendo em vão.
 
(Mário Quintana)


Escrito por Ademir às 20h19
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ORFEU

Os bons pintores trazem mais do que tintas em sua paletas.
O cineasta brasileiro Carlos Reichenbach disse certa vez:
"Mesmo correndo o risco do exagero, eu afirmo que as cores
de Redon são cores de Deus".
O pintor francês Odilon Redon foi um dos maiores pintores
simbolistas. Pintava realidades mais imaginárias do que o
observável e ajudou a criar as bases para  a arte abstrata.
Orfeu é minha tela preferida. Nela, há uma alquimia das cores
que aguça meus sentidos. Vem à lembrança  um céu de
infância logo depois da chuva.
Abri a janela do quarto para ver as ruas molhadas e, por cima
dos telhados encardidos das casas, o que roubou meu olhar
foi um imenso céu rosa-violeta. Igual ao céu de Redon.
Igual ao céu sob o qual descansa Orfeu com sua cítara.
Orfeu que, com sua música, apaziguava os homens e as feras.
Como todo mito, Orfeu não se explica, é.
E assim também é a arte de Redon.


Escrito por Ademir às 18h30
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UM POUCO DE PAULO LEMINSKI

ASAS E AZARES


Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não dói.
 

 
PROFISSÃO DE FEBRE


           quando chove,
        eu chovo,
           faz sol,
        eu faço,
           de noite,
        anoiteço,
           tem deus,
        eu rezo,
           não tem,
        esqueço,
           chove de novo,
        de novo, chovo,
           assobio no vento,
        daqui me vejo,
           lá vou eu,
        gesto no movimento

 
SEM BUDISMO


     Poema que é bom
acaba zero a zero.
     Acaba com.
Não como eu quero.
     Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
     veneno de letra,
bolero. Ou menos.
     Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
     Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
     e sozinho.

 
A LUA NO CINEMA


     A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
     a história de uma estrela
que não tinha namorado.

     Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
     dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

     Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
     e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

     A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
     que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!



Escrito por Ademir às 19h45
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O IMPÉRIO DAS LUZES

Alguém já disse que os quadros do pintor belga René Magritte
não podem ser simplesmente vistos, precisam ser pensados.
Gosto demais de "O império das luzes". Posso passar um bom
tempo olhando para o que, num primeiro momento, parece
apenas uma casa com um céu claro ao fundo. Olhando um pouco
mais é que o quadro mostra sua verdadeira face surrealista.
Por que a noite já caiu sobre a casa quando atrás dela ainda é dia?
O que estamos vendo? A frente ou os fundos da casa?
Há muitas janelas, mas faltam portas.
Confesso que a tela me assusta um pouco por conta de suas
simultaneidades (o claro/escuro é apenas uma delas, a mais óbvia). 
Magritte dizia que os poderes do pensamento abrangem tanto o
visível quanto o invisível. E frisava: “Eu faço uso da pintura para
tornar os pensamentos visíveis".
 


Escrito por Ademir às 18h37
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ISMÁLIA

Gosto muito da poesia simbolista.

Alphonsus de Guimaraens, um dos grandes nomes do
Simbolismo, talvez seja o mais místico dos poetas brasileiros.
A morte da noiva Constança marcou profundamente
sua vida e sua obra. A morte, aliás, é tema recorrente
em seus poemas pois ela é o único caminho, o destino último 
para chegar à amada.
A melancolia é sempre fator marcante, aliada aos sonhos e
às amarguras do poeta.
Conheci Ismália no ginásio e nunca esqueci seus versos
de ritmo tão musical.
Voa Ismália, voa...

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
 
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
 
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
 
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
 
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.


Escrito por Ademir às 19h59
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JARDIM TEXTIL, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, Cinema e vídeo
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