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A CIDADE MÁGICA

 

 

Há um ano estava em Praga.
O que sinto agora é uma saudade doída, incômoda até.
Tardes douradas, noites que custavam a chegar num céu
azul-marinho, nunca negro.
 
 
Ficou muito forte o cheiro da História, a sensação de algo maior.
Conhecer Praga era um sonho antigo.
Não foi paixão à primeira vista pois eu já a amava antes
mesmo de conhecê-la.  Isso a gente não explica.
Cheguei a Praga numa manhã fria, apesar de ser verão.
Depois os dias foram me aquecendo.
O antigo centro do Reino da Boêmia, hoje chamado de
"Centro Velho",  é um dos mais preservados de toda a Europa.
Como era verão, vi a Ponte Carlos cheia de artistas: músicos,
cantores, pintores...
Com mais de 600 anos, a ponte foi inaugurada pelo rei Carlos IV
no dia 9 de julho de 1357, às 5 horas e 31 minutos
(número que pode ser lido da mesma forma de trás pra frente).
De todas as pontes da cidade, esta é especial, com várias
imagens sacras de ambos os lados. Uma delas, dizem, dá
muita sorte se tocada. Por isso está se desgastando com o
passar dos séculos. Todo mundo quer um pouco de sorte.
 
 
Na praça principal da cidade fica o famoso relógio
astronômico, feito antes de o Brasil ser "descoberto".
Conta a lenda que o rei mandou cegar seu autor para
que não fizesse outro igual.
 
 
Todas as ruas do centro velho são tortuosas.
Nenhuma é paralela a outra.
 
 
A visita ao castelo foi de arrepiar!
É o maior de todos os castelos e um dos mais velhos
do mundo. Começou a ser construído no século 9 e tem
meio quilômetro de extensão.
 
 
Que delícia passear pela Linha do Ouro, uma ruela
muito simpática, hoje repleta de lojinhas charmosas, 
onde antigamente moravam os ourives do castelo.
Lá também fica uma das casas onde Kafka viveu.
No rio Moldávia, que corta a cidade, podem-se ver
cisnes nadando ou remadores exercitando seus bíceps
pela manhã.
Muitas saudades de Praga!
Um dia eu volto...
 


Escrito por Ademir às 19h39
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POESIA

A poesia não é uma liberação da emoção,
mas uma fuga da emoção;
não é a expressão da personalidade,
mas uma fuga da personalidade.
Naturalmente, porém, apenas aqueles que têm
personalidade e emoções sabem o que significa
querer escapar dessas coisas.
(T. S. Eliot)


Escrito por Ademir às 19h29
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BROTANDO

Saio para sentir o cheiro da terra primitiva.
Há todo um verde envolto numa fina nuvem de névoa. E faz  frio!
Azul é a cor das montanhas distantes, recortadas no
horizonte como aquarela em papel de arroz.
O corpo balança na rede feito um moto-perpétuo e mesmo
movimento faz o pensamento, que teima na busca daquilo que
passou e num sobressalto especula a respeito do que virá.
Melhor é pensar pra frente.
E a rede balança. Pra trás. Pra frente. Pra trás. Pra frente. Traz.
Um pássaro, uma flor, a grama úmida pela noite que já se foi.
Olhos que tudo sentem.
Com o ar vem música: "A nave em breve ao vento vaga de leve
e traz toda a paz que um dia o desejo levou".
Não quero mais essa calma. Estou pronto para novo arrebatamento.
E todo um céu grávido desaba em chuva.
O pássaro foge, numa linha escura, procurando abrigo.
O caule da flor forma um arco com o peso a mais e procura
em vão a secreta raiz.
E na grama surge um broto.


Escrito por Ademir às 19h50
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A ARTE DE SER FELIZ

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

 

(Cecília Meirelles)

Íris (tela de Van Gogh)



Escrito por Ademir às 20h06
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QUAL A COR DO PARAÍSO?

  

Sou suspeito para falar de filmes iranianos.
Gosto muito da maioria deles.
O melhor, para mim, é Filhos do paraíso, de Majid Majidi.
No ano em que Central do Brasil concorreu ao Oscar
de filme estrangeiro, Filhos do paraíso também estava no páreo.
Mas, infelizmente, não houve chance para nenhum deles, afinal 
A vida é bela entrou como um trator (o que faz o poder de um lobby)
e acabou levando o homenzinho dourado. Não que o filme seja ruim,
mas só a cena final, em que a bandeira americana tremelica ao vento e 
um soldado americano, belo e louro, chega para salvar os
oprimidos, já desmereceria qualquer premiação.
Hoje, no entanto, vim para falar de A cor do paraíso,
também de Majid Majidi, e que acaba de ser lançado em DVD.
As férias chegaram e Mohamed, um garoto cego e estudante
numa escola especial de Teerã, espera o pai chegar para levá-lo
ao vilarejo nas montanhas onde moram a avó e as irmãs.
A mãe morreu faz dois anos.
Todas as outras crianças já se foram, mas Mohamed fica sozinho
no pátio da escola.
O tempo passa. O pai não chega.
Com sensibilidade aguçada para todos os outros sentidos,
o menino ouve um passarinho e, logo depois, um gato.
Afugenta o gato e ouve o passarinho cada vez mais perto.
E aí começa uma das cenas mais bonitas do filme.
Pelo tom com que o passarinho pia, o menino sabe que
é um filhote e que provavelmente caiu do ninho.
Tateando as folhas, finalmente encontra o pequeno pássaro.
Sobe com sacrifício numa árvore e, com a mesma dificuldade,
algum tempo depois, encontra um ninho, onde o coloca.
Uma metáfora, talvez, do seu próprio medo do abandono.
O pai aparece, mas não está disposto a levar o filho com ele,
já que pretende casar-se novamente e o menino poderia ser um estorvo.
Mas acaba levando-o para junto da avó e das irmãs.
Com todos esses elementos, o filme teria tudo para descambar para o
melodrama mais deslavado, mas não é isso o que acontece.
 
 
Os muitos momentos de emoção cativam justamente pela simplicidade
e nos mostram as várias faces da vulnerabilidade humana,
notadamente nos cinco arrebatadores minutos finais, quando 
o pai hesita entre salvar o filho ou deixá-lo morrer.
O filme é de um colorido luminoso, intenso; as imagens no campo, belíssimas.
Mohsen Ramezani, como Mohamed, assim como a maioria dos
atores mirins iranianos, é muito bom.
A natureza tem um papel muito especial na história, e no belo
desfecho, principalmente.
 
 
 
 Um filme tocante!


Escrito por Ademir às 20h34
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JANELA

Amar a janela –
soa melhor do que amar o sol
porque não ofusca

Se se perde a janela
perde-se o estreito por onde se avança ao céu

e a alegria é para nós
a notícia de hoje

Pois quando limpamos a janela
é também quando podemos cantar
Dizem que as estrelas são terras alheias de dezembro,
distantes distantes...

E conservando a janela limpa e cristalina
exercitamos o hábito de abrir gentilmente os olhos,

e que os olhos límpidos
sejam os nossos corações reluzentes
na espera do amanhã...

(Kim Hyón-sung)

© O PÁSSARO QUE COMEU O SOL
Poesia Moderna da Coréia

Edição: artepaubrasil editora



Escrito por Ademir às 20h54
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A LEMBRANÇA

Na caverna, as paredes deram-me sensações úmidas, que lavaram
meu corpo inerte e foram morrer nos pés descalços.
Quando gritei meu nome, ganhei com o eco o mesmo grito, tão rápido,
tão pronto, que não houve a mínima chance da saudade de mim mesmo.
É bom relembrar?
Talvez não, quando a pele recobre a carne que sofre.
Cheguei às margens de um lago escurecido pelas sombras e os olhos
teimaram em mostrar ampulhetas que nele boiavam, embora nisso não
houvesse nenhuma lógica.
Brilhavam com muita fraqueza, quando o escuro lhes dava a
oportunidade de uma luz maior.
Fiz da escuridão algo mais negro ainda e apaguei a nostalgia que
trazia nas íris.
Quando de novo abri os olhos, nem de todo livre do esquecimento,
notei que as ampulhetas não traziam as areias do tempo.
Ampulhetas a marcar o inútil.
Senti, então, sob os pés, as areias quentes de um domingo.
Ouvi música e o novo eco que se formou reverberou pelo 
meu corpo surpreendido.
Ainda sentia!


Escrito por Ademir às 20h09
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PRA QUÊ?

Sonhar é nada e não saber é vão.

Dorme na sombra, incerto coração.

(Pessoa)



Escrito por Ademir às 09h47
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