QUAL A COR DO PARAÍSO?
Sou suspeito para falar de filmes iranianos.
Gosto muito da maioria deles.
O melhor, para mim, é Filhos do paraíso, de Majid Majidi.
No ano em que Central do Brasil concorreu ao Oscar
de filme estrangeiro, Filhos do paraíso também estava no páreo.
Mas, infelizmente, não houve chance para nenhum deles, afinal
A vida é bela entrou como um trator (o que faz o poder de um lobby)
e acabou levando o homenzinho dourado. Não que o filme seja ruim,
mas só a cena final, em que a bandeira americana tremelica ao vento e
um soldado americano, belo e louro, chega para salvar os
oprimidos, já desmereceria qualquer premiação.
Hoje, no entanto, vim para falar de A cor do paraíso,
também de Majid Majidi, e que acaba de ser lançado em DVD.
As férias chegaram e Mohamed, um garoto cego e estudante
numa escola especial de Teerã, espera o pai chegar para levá-lo
ao vilarejo nas montanhas onde moram a avó e as irmãs.
A mãe morreu faz dois anos.
Todas as outras crianças já se foram, mas Mohamed fica sozinho
no pátio da escola.
O tempo passa. O pai não chega.
Com sensibilidade aguçada para todos os outros sentidos,
o menino ouve um passarinho e, logo depois, um gato.
Afugenta o gato e ouve o passarinho cada vez mais perto.
E aí começa uma das cenas mais bonitas do filme.
Pelo tom com que o passarinho pia, o menino sabe que
é um filhote e que provavelmente caiu do ninho.
Tateando as folhas, finalmente encontra o pequeno pássaro.
Sobe com sacrifício numa árvore e, com a mesma dificuldade,
algum tempo depois, encontra um ninho, onde o coloca.
Uma metáfora, talvez, do seu próprio medo do abandono.
O pai aparece, mas não está disposto a levar o filho com ele,
já que pretende casar-se novamente e o menino poderia ser um estorvo.
Mas acaba levando-o para junto da avó e das irmãs.
Com todos esses elementos, o filme teria tudo para descambar para o
melodrama mais deslavado, mas não é isso o que acontece.
Os muitos momentos de emoção cativam justamente pela simplicidade
e nos mostram as várias faces da vulnerabilidade humana,
notadamente nos cinco arrebatadores minutos finais, quando
o pai hesita entre salvar o filho ou deixá-lo morrer.
O filme é de um colorido luminoso, intenso; as imagens no campo, belíssimas.
Mohsen Ramezani, como Mohamed, assim como a maioria dos
atores mirins iranianos, é muito bom.
A natureza tem um papel muito especial na história, e no belo
desfecho, principalmente.
Escrito por Ademir às 20h34
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