blog-up


NINHO

O vazio
O oco
a ser preenchido.
O logro
O ninho
há muito esquecido.
Que venha o pássaro!


Escrito por Ademir às 21h18
[   ] [ envie esta mensagem ]




DAQUILO QUE É MEU

                                      

Ando pensando muito nessa coisa chamada destino. E o porvir me assusta.
Cartas marcadas? Escrito nas estrelas? Não dá pra acreditar em nada disso. Ou dá?
E daí penso naquela outra coisa chamada livre-arbítrio.
Estaria o caminho, como num desenho infantil mal acabado, de alguma forma traçado? O esboço estaria lá. Depois, vai saber...
Se soubesse o que me aconteceria amanhã, talvez não achasse graça. Talvez o destino soprasse em meu ouvido que o dia não teria nada de especial, que eu ficaria em casa lendo jornal, dormiria à tarde, comeria frutas, receberia um telefonema por engano,  e que, finalmente, quando chegasse à noite e fosse deitar, uma espécie de angústia me afogaria por saber que, mesmo que quisesse, não poderia ter tornado aquele dia algo melhor. Afinal, tudo aquilo já estava traçado e era daquele jeito que deveria ter sido. E foi. E nem só de epopéias vive o homem.
Sim, o porvir me assusta. Mas também é ele que me leva adiante, que alimenta minhas esperanças, afaga minhas expectativas, mesmo que resultem em coisa alguma. Mas enquanto expectativas e esperanças existirem, continuarei sentindo o calor gostoso no peito que a espera otimista me dá, sentindo aquele estremecimento ao qual não sei dar nome, mas que me anima.
O que é meu, e só meu, está guardado. E sou eu, apenas eu, que posso saber onde procurá-lo.


Escrito por Ademir às 20h22
[   ] [ envie esta mensagem ]




FLORES DO MAIS

                                             

Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

(Ana Cristina Cesar -- 1952-1983)



Escrito por Ademir às 19h51
[   ] [ envie esta mensagem ]




FUTUROS

A única maneira de conhecer seu verdadeiro futuro, pois existe também um falso futuro, é ir na direção em que seu medo cresce.

(O Dicionário Kazar, Milorad Pávich)



Escrito por Ademir às 19h27
[   ] [ envie esta mensagem ]




DÁ-ME A TUA MÃO

 
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta. 

De como entrei 
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir 
-- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

(Clarice Lispector)



Escrito por Ademir às 20h06
[   ] [ envie esta mensagem ]




À ESPREITA

De quem é o olhar que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo, quem continua vendo enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem, não os meus tristes passos,
mas a realidade de eu ter passos comigo?
(Fernando Pessoa)


Escrito por Ademir às 12h19
[   ] [ envie esta mensagem ]




TROUXESTE?

 
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta,
sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres:
"Trouxeste a chave?"
 
(Drummond)


Escrito por Ademir às 10h19
[   ] [ envie esta mensagem ]




CAÇA

 

Por que é importante ler? Pergunta recorrente em qualquer encontro de escritores com estudantes. E a gente acaba desfiando um rosário de respostas prontas, um blablablá repetitivo, apesar de necessário. Mas hoje vou dar um exemplo prático. Estava lendo uma revista - nem era um livro - quando me deparei com uma entrevista feita com o chef Philippe Legendre, estrela da gastronomia francesa de quem nunca provei um ovo frito. Ignorante sobre quem era o cara, li. Lá pelas tantas, o repórter: "É verdade que o senhor adora caçar?" O chef: "Eu caço o silêncio. Atiro no barulho."

Bum!

Perdizes, faisões, coelhos, sei lá o quê o tal homem caça todo final de semana - e nem me interessa. O importante foi o impacto causado por aquelas duas frasezinhas curtas que pareciam um poema e que empurraram meu pensamento para além daquelas páginas, me puseram a pensar sobre minhas próprias perseguições. Caço o silêncio. Atiro no barulho. Eu idem, monsieur.

Eu caço o sossego. Atiro na tevê.

Eu caço afeto. Atiro em gente rude.

Eu caço liberdade. Atiro na patrulha.

Eu caço amigos. Atiro em fantasmas.

Eu caço o amanhã. Atiro no ontem.

Eu caço prazeres. Atiro no tédio.

Eu caço o sono. Atiro no sol.

E quando caço o sol, atiro em relógios. Acho que é isto que a leitura faz. Nos solta na floresta com uma arma na mão. Nos dá munição para atirar em tudo o que nos distrai de nós mesmos, no que nos desconcentra. O livro não permite que fiquemos sem nos escutar. A leitura faz eu mirar em mim e acertar no que eu nem sabia que também sentia e pensava. E, por outro lado, me ajuda a matar tudo o que pode haver em mim de limitante: preconceitos, idéias fixas, hipocrisias, solenidades, dores cultuadas.

Lendo, eu caço a mim e atiro em mim.

(Martha Medeiros)



Escrito por Ademir às 15h44
[   ] [ envie esta mensagem ]




COM OS LOBOS

Não tenho dúvida: A companhia dos lobos é um dos meus filmes preferidos. Foi uma fita pirata que me apresentou a esse filme surpreendente no final dos anos 80. Uma descoberta!

Pouco tempo depois, revi o filme num cineclube que nem existe mais.

No cinema, lembro bem que determinadas cenas arrancaram interjeições da platéia. A fotografia, belíssima, nos transportou para uma atmosfera de sonho permanente. E lá, na poltrona, no escuro envolvente, cada um pôde sentir o filme de uma maneira muito própria e intransferível. Na saída, foi difícil mudar o registro e voltar à realidade cinza da praça Roosevelt.

Para mim, é a obra-prima do irlandês Neil Jordan (embora também goste muito de À procura do destino e de Monalisa), que, agora, é lançada em DVD por aqui. Claro que já comprei o meu.

Baseado no conto "O quarto do Barba-Azul", da escritora inglesa Angela Carter, A companhia dos lobos mostra que os contos de fadas não são necessariamente para crianças (aliás, de infantis os contos originais não têm é nada).

Espécie de revisão em forma de terror do mito de Chapeuzinho Vermelho, analisa o despertar sexual da adolescente Rosaleen.

O filme traz cenas violentas e alguns efeitos especiais que, se não surpreendem hoje em dia, há vinte anos deixou muita gente impressionada (inclusive eu, claro).

As cenas na floresta são particularmente bonitas e foi pensando nelas que escrevi o texto publicado no dia 14 (veja mais abaixo).

No elenco, merece destaque o ótimo Stephen Rea, que voltaria a trabalhar com o diretor.

Um conto de fadas diferente, adulto, marcante! Um assombro para os olhos. 



Escrito por Ademir às 22h47
[   ] [ envie esta mensagem ]




O AMOR, O QUE É?

 
O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias,
uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta
(Gregório de Matos - 1623-1696)
 
 
Apaixonar-se é criar uma religião cujo deus é falível.
(Jorge Luis Borges. Também atribuído a Paul Valéry)
 
O amor. É claro, o amor. Chamas por um ano, cinzas por trinta.
(Giuseppe di Lampedusa (1896-1957)
 
Ao amor, que tem tudo, deve-se ir sem nada.
(Ledo Ivo)
 
Não se deve servir o objeto que nos possui; 
Não se deve alimentar de amor quem não nos cede:
Odeio se me força; e quando amo, quero
que da vontade dependam os meus votos.  
Que meu fogo me obedeça, em vez de me tolher.
Que eu possa a bel-prazer inflamá-lo e apagá-lo.
(Pierre Corneille - 1606-1684)
 
Amar com muito apego
É para almas miúdas.
Só o que faz o amor constante
É descrer de merecê-lo.
Foge o amante ao compromisso,
Morde o freio nos limites,
Não o cace, não o irrite
Só mudando ele é feliz.
(Saint-Pavin, 1759)
 
O que ama não pede sacrifícios, sacrifica a si mesmo.
(Gabriela Mistral- 1889-1975)
 
Os amantes sabem o que querem, mas não do que precisam.
(Publilius Syrus – século I a.C.)
 
Ama e faze o que quiseres.
(Santo Agostinho – 345-430)


Escrito por Ademir às 20h04
[   ] [ envie esta mensagem ]




BISCOITO FINO

Gosto muito de metáforas. Desde que bem empregadas.

Metáfora é como açúcar. Se usar muito, fica enjoativo.

O deus das pequenas coisas, belo e comovente livro da escritora indiana Suzanna Arundhati Roy, é ótimo exemplo de como não desandar a receita.

No outro extremo, lembro-me sempre de O dono do mar, de José Sarney, o tal dos marimbondos fogosos. Depois de tanto se falar - e bem - do livro, fiquei curioso e fui procurá-lo.

Vai saber quantas maravilhas posso ter perdido, mas fato é que não consegui passar da página 12. Açúcar de mais e o caldo ficou muito grosso. Entornou e enjoei.

Anos depois me deparo com outra jóia, outro ninho de belas metáforas: Middlesex, do americano Jeffrey Eugenides. Este é apenas seu segundo livro. O primeiro, As virgens suicidas, acabou virando o filme de estréia de Sofia Coppola. Duas boas estréias.

Mas é com Middlesex que Eugenides mostra todo seu talento. Não à toa ganhou o Pulitzer de 2003.

Em mãos pesadas e inábeis a história do hermafrodita Caliope (ou Cal) poderia descambar para o dramalhão, para o sensacionalismo, para o grotesco. Mas o autor a transformou naquele que foi chamado um dos melhores livros de ficção dos últimos tempos.

Middlesex flui de maneira hipnótica, tem um humor delicioso, ainda que algumas passagens sejam trágicas, como convém a uma boa história grega.

O trecho abaixo, de um site português, consegue em poucas linhas dar uma boa idéia do livro:

"Abarcando oito décadas e uma adolescência particularmente complicada, o tão aguardado segundo romance de Jeffrey Eugenides é uma fábula grandiosa e absolutamente original de genealogias trocadas, explorando as complexidades do gênero e as motivações caóticas e profundas do desejo. Um triunfo extraordinário do autor de As virgens suicidas , esta é a história mirabolante de um gene que atravessa três gerações de uma família de gregos americanos até florescer no corpo de uma jovem adolescente."

Ou, como disse a Veja :

"É também uma abordagem curiosa - e nada amarga - do amor e da reprodução sob a ótica evolucionista. O tema central de Middlesex, no fundo, é universal: o drama do ser humano que se debate entre o destino e sua própria vontade."

Eugenides vem ao Brasil agora em julho para a Festa Literária Internacional de Parati. Ele que se prepare. Muita gente vai perguntar por Caliope.

Aí vai o início do livro. Depois me diga se não deu vontade de continuar lendo...

"Eu nasci duas vezes: primeiro como uma menininha, num dia excepcionalmente despoluído de Detroit, em janeiro de 1960; e depois outra vez como um rapaz adolescente, num ambulatório de emergência perto de Petoskey, Michigan, em agosto de 1974. Os leitores especializados talvez tenham esbarrado comigo no estudo do dr. Peter Luce, "Identidade sexual em pseudo-herma­froditas com 5-alfa-redutase", publicado no Journal of Pediatric Endocrinology em 1975. Ou talvez tenham visto a minha fotografia no capítulo 16 do hoje tristemente ultrapassado Genetics and He­redity. Sou eu lá na página 578, sem roupa, diante de um gráfico que indica minha altura, com uma tarja preta sobre os olhos.

Minha certidão de nascimento dá meu nome como sendo Ca­liope Helen Stephanides. Minha última carteira de motorista (da República Federal da Alemanha) registra meu primeiro nome sim­plesmente como Cal. Já fui goleira de hóquei, pertenço há muito tempo à Fundação para a Salvação do Peixe-Boi, freqüento com pouca assiduidade a igreja ortodoxa grega e passei a maior parte da minha vida adulta trabalhando no Departamento de Estado ame­ricano. Como Tirésias, fui primeiro uma coisa e, depois, outra. Colegas de escola me ridicularizaram, médicos me trataram como cobaia, especialistas me apalparam e a instituição March of Dimes me pesquisou. Uma ruiva de Grosse Pointe se apaixonou por mim, sem saber o que eu era. (0 irmão dela também gostava de mim.) Um tanque do Exército me levou a uma batalha urbana; uma piscina me transformou em mito; já saí do meu corpo a fim de ocupar outros - e tudo isso aconteceu antes dos meus dezesseis anos.

Mas hoje, aos quarenta e um anos de idade, sinto outro nasci­mento se aproximando. Depois de décadas de indiferença, eu me pego pensando em tios e tias-avós já falecidos, avôs há muito perdidos, primos em quinto grau desconhecidos ou, no caso de uma família endogâmica como a minha, em todas essas coisas numa só. E, antes que seja tarde demais, quero registrar direito essa solitária viagem de montanha-russa de um gene através dos tempos. Canta agora, ó Musa, a mutação recessiva do meu quinto cromossomo! Canta o seu florescimento há dois séculos e meio nas encostas do monte Olimpo, enquanto as cabras baliam e as azeitonas caíam. Canta a sua passagem por nove gerações, acumulando-se invisivelmente na poluída herança genética da família Stephanídes. E canta o envio do gene pela Providência - sob o pretexto de um massacre - como uma semente sobre o mar até a América, até cair, em meio às nossas chuvas industriais, no solo fértil do útero caipira da minha mãe.

Perdoem-me se às vezes fico um tanto homérico. Isso também é genético".

 Pra devorar, mas degustando.



Escrito por Ademir às 21h09
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]




 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JARDIM TEXTIL, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, Cinema e vídeo
Histórico
  01/05/2008 a 15/05/2008
  01/04/2008 a 15/04/2008
  01/03/2008 a 15/03/2008
  16/02/2008 a 29/02/2008
  01/02/2008 a 15/02/2008
  01/01/2008 a 15/01/2008
  16/06/2007 a 30/06/2007
  01/04/2007 a 15/04/2007
  01/02/2007 a 15/02/2007
  16/11/2006 a 30/11/2006
  01/11/2006 a 15/11/2006
  01/08/2006 a 15/08/2006
  01/07/2006 a 15/07/2006
  01/06/2006 a 15/06/2006
  01/05/2006 a 15/05/2006
  01/04/2006 a 15/04/2006
  16/03/2006 a 31/03/2006
  01/03/2006 a 15/03/2006
  16/02/2006 a 28/02/2006
  01/02/2006 a 15/02/2006
  16/01/2006 a 31/01/2006
  16/12/2005 a 31/12/2005
  01/12/2005 a 15/12/2005
  16/11/2005 a 30/11/2005
  16/10/2005 a 31/10/2005
  01/10/2005 a 15/10/2005
  16/09/2005 a 30/09/2005
  01/09/2005 a 15/09/2005
  16/08/2005 a 31/08/2005
  01/08/2005 a 15/08/2005
  16/07/2005 a 31/07/2005
  01/07/2005 a 15/07/2005
  16/06/2005 a 30/06/2005
  01/06/2005 a 15/06/2005
  16/05/2005 a 31/05/2005
  01/05/2005 a 15/05/2005
  16/04/2005 a 30/04/2005
  01/04/2005 a 15/04/2005
  16/03/2005 a 31/03/2005
  01/03/2005 a 15/03/2005
  16/02/2005 a 28/02/2005
  01/02/2005 a 15/02/2005
  16/01/2005 a 31/01/2005
  01/01/2005 a 15/01/2005
  16/12/2004 a 31/12/2004
  01/12/2004 a 15/12/2004
  16/11/2004 a 30/11/2004
  01/11/2004 a 15/11/2004
  16/10/2004 a 31/10/2004
  01/10/2004 a 15/10/2004
  16/09/2004 a 30/09/2004
  01/09/2004 a 15/09/2004
  16/08/2004 a 31/08/2004
  01/08/2004 a 15/08/2004
  16/07/2004 a 31/07/2004
  01/07/2004 a 15/07/2004
  16/06/2004 a 30/06/2004
  01/06/2004 a 15/06/2004


Votação
  Dê uma nota para meu blog