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CRESCE

                

Cresce a vida
cresce o tempo
cresce tudo
e vira sempre
esse momento
 
     Cresce o ponto
     bem no meio
     do amor seu centro
     Assim como
     o que a gente sente
     e não diz
     cresce dentro
 
(Paulo Leminski)


Escrito por Ademir às 21h13
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GUARDADOS

Remexendo nas gavetas, encontrei este texto, escrito há 11 anos. Tinha dado a ele o nome de Plágio. Ao escrevê-lo, pensei  na atmosfera de A companhia dos lobos. Ainda volto a esse que é um dos meus filmes preferidos. Mas por enquanto a história é essa...

Elas indicavam-lhe o caminho e, se caía, era levada, pelo choque do contato viscoso do couro frio, sempre à frente, ao destino certo.

Chegou à casa de Lobo. Marcada, estranhamente nua.

Ele recebeu-a à porta. Ele cheirando a carvão. Nada lhe perguntou e ela nada disse, apenas ofereceu-lhe a carne.

Ele estranhou-lhe o corpo quente, quando lá fora tão frio.

Enlaçaram-se e ela viu, pela pequena janela, o suor escorrendo das plantas, branco. Noite, floresta em azul.

Dentro, viu o mundo, por minuto, em vermelhos-tons e também vermelhos os olhos dele, apenas por ser os que iluminam a noite.

Ela, rosa dilacerada, viu-se roubada de sua pétala primeira. Saiu para o breu. Novo estigma. E por envolver-lhe o negro, sonada, recostou-se em tronco espesso e adormeceu, sonhando que o que sonhava era sonho.

Estranha de si, abriu os olhos à escuridão, na certeza de acordar noutro lugar, seguro. Nada viu além de si mesma. Noite ainda, de novo adormeceu.

Durante os sonhos, aranhas fiaram-lhe os cílios, mas pôde ela ver, tempo depois, através da delicada neblina que lhe impuseram os olhos semicerrados, que era dia.

Sentiu o mesmo tronco ao toque, na boca o gosto de um beijo dormido. Já prisioneira de um sonho e de um encanto eternos.

Levantou-se.

Perdida? Sem respostas, não se assustou com a surpresa de encontrar os caminhos abandonados pelas serpentes.

 



Escrito por Ademir às 20h25
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PEDRA

 

 

Serei uma pedra quando morrer

não maculada pelos amores

inamovível às paixões

no silêncio apático de um bilhão de anos

a açoitar por dentro, só para dentro,

até olvidar mesmo a vida

nuvens que passam

trovões ao longe

Serei uma pedra

que não canta, nem mesmo em sonhos

e não chora, ainda que se parta em duas

(Yu Tchi-hwan)

 

© O PÁSSARO QUE COMEU O SOL
Poesia Moderna da Coréia

Edição: artepaubrasil editora



Escrito por Ademir às 21h43
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ROSTOS ESQUECIDOS

 

Vem o sono ao fim do pensamento

Ao fim da saudade o esquecimento

Por isso, não digas mais nada, quando este chegar

Não conheço mágoa que não tenha

as marcas de um rosto esquecido

(Kim So-wór) 

© O PÁSSARO QUE COMEU O SOL
Poesia Moderna da Coréia

Edição: artepaubrasil editora



Escrito por Ademir às 19h09
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O MAR E A BORBOLETA



Porque ninguém lhe disse da fundura
a borboleta branca não tinha medo do mar

Era para ela uma plantação de folhas verdes
e, ao pousar, a asa tenra se gela no toque da água
e volta cansada como uma princesa

A borboleta, ressentida do mar de março sem flores,
sente a fina cintura gelar no crescente azul

(Kim Gui-rim) 

 

© O PÁSSARO QUE COMEU O SOL
Poesia Moderna da Coréia

Edição: artepaubrasil editora



Escrito por Ademir às 22h06
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A PÉROLA DO LIVRO BRILHA MAIS

 

A foto aí de cima parece uma pintura, não é mesmo? Pois esse é o maior mérito de Moça com brinco de pérola, filme que transforma muitos de seus fotogramas em obras de arte.

No século  XVII, Vermeer pintou aquele que se tornaria seu quadro mais famoso, Moça com brinco de pérola, conhecido como "a Mona Lisa holandesa".

Assim como a Gioconda de Da Vinci, até hoje se pergunta quem teria sido a moça que posou para Vermeer.

Foi a partir daí que a escritora Tracy Chevalier criou sua história e deu vida à Griet, uma criada que teria trabalhado na casa do pintor. E mostra a relação dos dois, pontuada por uma sensualidade represada quase ao limite do insuportável.

Griet (a excelente Scarlett Johansson) e Vermeer (o quase irreconhecível Colin Firth) comunicam-se muito mais por gestos e olhares do que por palavras. Eles mesmos parecem, às vezes, personagens de algum quadro do pintor, imersos num jogo de luzes e sombras no qual pouco se mostra, e muito se intui, no qual pouco se permite e muito se deseja.

Uma pena que o roteiro tenha deixado de fora alguns personagens, como os irmãos de Griet, e acontecimentos marcantes, como o acidente de trabalho que cega o pai da moça e a chegada da peste negra à cidade. Também ficou em segundo plano a questão da religiosidade (católicos x protestantes).

Além dos protagonistas, merecem destaque Tom Wilkinson, como o execrável mecenas Van Ruijven, e Judy Parfitt, como Maria Thins, sogra de Vermeer e quem na verdade é a responsável pela condução da casa.

Vale também pela impecável reconstituição de época - dos figurinos aos cenários, o filme realmente nos transporta para a Holanda do século XVII - e a espetacular fotografia do português Eduardo Serra.

 Um filme feito de olhares, em que o essencial esconde-se nas sombras.



Escrito por Ademir às 18h17
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DE RETORNOS E PASSAGENS

"No cinema, de nada adianta ter uma boa história a contar se não se sabe como fazer. Por sua vez, histórias simples, mas bem contadas, rendem filmes sensacionais. O longa russo O retorno, por exemplo, se encaixa nesta segunda categoria."

Assim, a jornalista Angélica Bito inicia seu parecer sobre este filme, que, como o livro O estranho caso do cachorro morto, recomendo com todas as minhas forças.

O que leva um pai a se afastar da família durante doze anos e a reaparecer como se nada tivesse acontecido? Mais estranha a reação da mulher, que aceita a nova condição com resignação.

Na verdade, não recebemos do diretor quase nenhuma pista a respeito daquilo que move a vida de seus personagens.

Falando em personagens, os mais fortes não são nem o pai nem a mãe, mas os filhos, de doze e quinze anos. Obrigados pelo pai a acompanharem-no durante uma pescaria de dois, três dias, os rapazes, cada vez mais, adentram um mundo selvagem, representado pela natureza exuberante e pelos modos bruscos do pai.

O mais velho, ao tentar resgatar o amor (será que de fato algum dia existiu?) do pai mostra-se submisso. O caçula, ao contrário, cada vez mais arredio, não entende as atitudes do homem a quem é obrigado chamar "papai".

Ivan Dobronravov, que faz o filho mais novo, chega a assustar pelo talento fenomenal. São dele as cenas mais emocionantes, mais vigorosas. Vladimir Garin, o outro rapaz, e também ator de muitas qualidades, morreu afogado logo após as filmagens, no mesmo lago que serviu de locação para o filme. Triste!

O diretor estreante Andrei Zvyagintsev, que levou o Leão de Ouro do Festival de Veneza por esse filme, ano passado, dedicou o prêmio ao jovem.

O cartaz do filme, além de belíssimo, traduz com perfeição o momento preciso da passagem dos garotos para outra etapa, talvez mais dura, da vida.

Se quiser ver o filme no cinema, corra, pois não fica muito mais tempo em cartaz. Depois, só em vídeo ou DVD. De qualquer maneira, é o tipo de filme que não se deve perder e que fica para sempre.

 Para o coração bater mais forte..




Escrito por Ademir às 11h15
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UM CACHORRO MORTO E MUITAS DESCOBERTAS

O estranho caso do cachorro morto é daqueles livros que, pensamos de início, podem servir apenas como agradável leitura de entretenimento. E nada mais. Mas já na primeira página mostra a que veio. Como já disseram em algumas críticas que li, o livro é uma delícia da primeira à última página. Sim, e daí? Uma torta de morango também é uma delícia, mas depois que termina e que lambemos os beiços, esquecemos dela. Ah, mas este livro não. O gosto permanece durante muito, muito tempo.

"Mimo" foi outra palavra utilizada por um resenhista para se referir a ele. Perfeita definição! Acho que até fui um pouquinho chato com os amigos e colegas ao falar tanto desse livro, a recomendá-lo efusivamente, a mandar resenhas e mais resenhas que encontrei na internet.

Mas do que se trata, afinal? De uma história enganosamente policial. Será que importa tanto assim saber quem matou o cachorro Wellington? Christopher Boone, adolescente de 15 anos é o principal suspeito, afinal foi visto com o corpo do cachorro nos braços em plena madrugada. Fã das histórias de Sherlock Holmes, o garoto passa a vasculhar a vizinhança à procura de pistas. E escreve um livro narrando suas aventuras. Detalhe: Christopher sofre da síndrome de Asperger, variedade de autismo descoberta há sessenta anos por Hans Asperger, mas só há dez reconhecida oficialmente pela psiquiatria.

"No fundo, é um livro sobre livros, sobre o que podemos fazer com as palavras", disse Mark Haddon, autor premiado de livros infantis e que agora se aventura na literatura adulta (na verdade, para todas as idades).

Haddon foi elogiado pelo neurologista Oliver Sacks, autor de Tempo de despertar, por seu retrato plausível de uma mente autista.

Mais não se pode dizer para não tirar o prazer da leitura (algumas resenhas chegaram ao cúmulo de contar, mesmo que nas entrelinhas, o segredo maior do livro. Que pecado!).

Christopher é incapaz de classificar emoções, mas, vejam que paradoxo, consegue nos emocionar em muitas, muitas passagens do livro. Como esta:

 "O que ocorre na realidade quando você morre é que seu cérebro pára de trabalhar e seu corpo apodrece, como aconteceu com o Coelho, quando ele morreu, e nós o enterramos na terra, nos fundos do jardim. E todas suas moléculas foram partidas em outras moléculas que se misturam à terra, são comidas por vermes e vão para as plantas, e, se a gente cava no mesmo lugar, dez anos depois, não vai encontrar nada, exceto o esqueleto. E mil anos depois, o esqueleto também desaparece. Mas, tudo bem, sendo assim, porque agora ele é parte das flores, da macieira e dos arbustos.

Quando as pessoas morrem, às vezes, são colocadas em caixões, o que significa que elas não se misturam com a terra por bastante tempo, até a madeira do caixão apodrecer.

Mas a Mãe foi cremada. Isso significa que ela foi colocada num caixão e queimada e virou pó, e depois cinza e fumaça. Eu não sei o que acontece com a cinza e não pude perguntar no crematório porque não fui ao funeral. Mas a fumaça sai pela chaminé, entra no ar e tem vezes que eu procuro no céu e fico achando que há moléculas da Mãe lá em cima, ou nas nuvens sobre a África ou sobre a Antártica, ou caindo como chuva nas florestas tropicais do Brasil, ou como neve em algum lugar."

Bonito, não é?

 Para ler com um sorriso permanente nos lábios e nos olhos.  Pura emoção!




Escrito por Ademir às 10h08
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FIAT LUX! E NO COMEÇO ERA O VERBO...


E aqui começo meu blog...
Os que já me conhecem sabem como sou e o que podem encontrar aqui. Os demais podem me conhecer por meio daquilo que vou escrever, seja falando de um filme bacana ou intragável que vi, um livro que li ou que larguei no começo, um CD que não sai da caixinha ou do discman ou uma poesia que resolvi lançar à página.
E vamos lá...

 


Escrito por Ademir às 23h18
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