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A VIDA, O QUE É?

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.

João Guimarães Rosa



Escrito por Ademir às 20h26
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AINDA ARDO

Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de
nós uma lembrança, um fumo que suba e não se apague.
Tudo é memória: um fumo leve, em mil visagens animadas;
ou denso, em formas inertes e sombrias; e, ao longe, a
grande fogueira invisível que os demônios e os anjos
alimentam.
Vivo, porque espero. Lembro-me, logo existo.
 
Teixeira de Pascoaes, em O pobre tolo.


Escrito por Ademir às 14h15
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SABER ESPERAR

 
Paciência:
uma forma menor de desespero,
mascarada de virtude.
 
Ambrose Bierce


Escrito por Ademir às 16h31
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DO QUE NÃO É MEU

© André Burian/CORBIS

Do aeroporto de Frankfurt partimos direto para Würzburg,

porta de entrada para a linda Rota Romântica. De Frankfurt

mesmo só conhecemos, de longe, seu skyline.

Já em Würzburg saí do hotel para jantar na companhia

de dois companheiros de viagem e debaixo de uma chuva

grossa, insistente.

Chegamos a um restaurante charmoso e deixei meu

guarda-chuva (sempre levo um na bagagem) numa espécie

de vaso fundo, junto a outros três ou quatro. Na hora de ir

embora a chuva ainda caía e os guarda-chuvas já eram muitos.

Procurei pelo meu, tamanho pequeno. Custei a encontrá-lo.

Porém, alguma coisa ao toque soou estranha.

No caminho para o hotel, o estranhamento se manteve.

Foi no quarto que vi, finalmente, que aquele não era o

meu guarda-chuva. Peguei outro por engano, por sinal de

melhor qualidade que o meu. A chuva continuava, estava

escuro, não conhecia a cidade e meu senso de direção é

quase nulo. Eu teria de voltar sozinho ao restaurante.

Não voltei.

No dia seguinte fiquei me remoendo de remorso.

No fim da viagem, num quarto de hotel novamente em

Frankfurt, para um day use enquanto esperava pelo vôo

noturno, descansei um pouco, tomei um banho e dei uma

última olhada na mala. Tirei de lá o guarda-chuva e o deixei

dentro do armário do quarto. Que ficasse por lá.

Comentando a história outro dia com minha amiga Érika, eu

a fiz voltar à época em que, menina, ia à escola com a irmã,

lá em Belo Horizonte. Disse que, um dia, entraram na papelaria

do bairro e, numa prateleira, viram  um pequeno rolo de durex.

A mão de uma foi muito mais rápida do que os olhos da outra.

Quando deram conta, o rolinho já estava sob as roupas de

uma delas. Saíram apressadas e cúmplices.

Quando é que um artigo como aquele entraria na lista de

prioridades da família?

À noite, na cama, as duas se reviraram. Não conseguiram

dormir.

A Érika não me contou, mas, provavelmente, esconderam o

objeto dentro de alguma gaveta, atrás de algum livro.

À noite, as sombras são maiores do que deveriam ser.

No dia seguinte voltaram à papelaria e no mesmo lugar

largaram rapidamente o motivo do desconforto.

Será que o guarda-chuva ainda está no armário daquele

quarto de hotel perto do aeroporto?

Que destino teve aquele rolinho de durex? Serviu para

encapar cadernos, repor a capa caída de um livro, embrulhar

presentes?

Tudo isso porque estava chovendo...

 



Escrito por Ademir às 21h47
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O MOMENTO

Hugh Shurley

Clarice disse:
"Sou um coração batendo no mundo."
 
Eu digo:
Está na hora de desassossegar esse meu coração...


Escrito por Ademir às 13h50
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PONTO DE VISTA

© Image Plan/Corbis

Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte
como uma ventania.
Depende de quando e como você me vê passar.
 
Clarice Lispector


Escrito por Ademir às 16h17
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O ATO DE ESCREVER

Tom Nebbia

"Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina

com um ponto final. No meio você coloca idéias." (Pablo Neruda)

"Escrever é, simplesmente, uma maneira de falar sem

que nos interrompam." (Sofocleto)

"É preciso escrever o mais possível como se fala e não falar

demais como se escreve." (Sainte-Beuve)

"O ato de escrever é a arte de sentar-se

numa cadeira." (Sinclair Lewis)

"Somos todos escritores. Só que uns escrevem,

outros não." (José Saramago)

"Escrever é ter coisas para dizer." (Darcy Ribeiro)

"Perdoe-me, senhora, se escrevi carta tão comprida.

Não tive tempo de fazê-la curta." (Voltaire)
 
"Uma história se conta, não se explica." (Jorge Amado)

"Escrevo para que meus amigos me amem ainda mais."

(Gabriel García-Márquez)

"Quem não lê não escreve." (Wander Soares)

"Cada um escreve do jeito que respira. Cada um tem seu estilo.

Devo minha literatura à asma." (Fabrício Carpinejar)

"Escrever é um ato de liberdade." (Martin Amis)

"Escrever é uma forma de a voz sobreviver à pessoa."

(Margaret Atwood)

"De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça.

Mas para crianças um livro é todo um mundo." (Monteiro Lobato)

"Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer é

porque um dos dois é burro." (Mário Quintana)

"Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente ninguém

sabe quais são elas." (W. Somerset Maugham)

"O autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica

por conta do leitor." (Joseph Conrad)

"Corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la, ah, amigo!

Isso é difícil." (Jorge Luis Borges)

"Escrever é deixar uma marca. É impor ao papel em branco um sinal

permanente, é capturar um instante em forma de palavra."

(Margaret Atwood)

"Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente

a minha própria vida." (Clarice Lispector)

"Para escrever bem é preciso uma facilidade natural e uma

dificuldade adquirida." (Joseph Joubert)

"Escrever não é nada mais senão ter o tempo de dizer:

estou morrendo." (Gaëtan Picon)

"Uns escrevem para salvar a humanidade ou incitar lutas de

classes, outros para se perpetuar nos manuais de literatura ou

conquistar posições e honrarias. Os melhores são os que

escrevem pelo prazer de escrever." (Lêdo Ivo)

"Escrever é sacudir o sentido do mundo." (Roland Barthes)



Escrito por Ademir às 21h03
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2008

Será um ano muito bom.

Porque eu sinto...

 

Alexander Benz

Receita de Ano Novo

(Carlos Drummond de Andrade)
 
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido),
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo.
Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Escrito por Ademir às 13h21
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O TURISTA E O VIAJANTE

Brian Klutch

Grande é a diferença entre o turista e o viajante.
O primeiro é uma criatura feliz, que parte por este mundo
com a sua máquina fotográfica a tiracolo, o guia no bolso,
um sucinto vocabulário entre os dentes: seu destino é
caminhar pela superfície das coisas, como do mundo,
com a curiosidade suficiente para passar de um ponto a outro,
olhando o que lhe apontam, comprando o que lhe agrada,
expedindo muitos postais.
[...]
O viajante é criatura menos feliz, de movimentos mais
vagarosos, todo enredado em afetos, querendo morar
em cada coisa, descer à origem de tudo, amar loucamente
cada aspecto do caminho.
 
(Cecília Meireles)


Escrito por Ademir às 16h42
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A MORTE NARRA UMA HISTÓRIA

Numa só palavra: imperdível!

 

 
Provavelmente, é lícito dizer que, em todos os anos do império
de Hitler, nenhuma pessoa pôde servir ao führer com tanta lealdade
quanto eu. O ser humano não tem um coração como o meu.
O coração humano é uma linha, ao passo que o meu é um círculo,
e tenho a capacidade interminável de estar no lugar certo na hora certa.
A conseqüência disso é que estou sempre achando seres humanos no
que eles têm de melhor e de pior. Vejo a sua feiúra e sua beleza, e me
pergunto como uma mesma coisa pode ser as duas. Mas eles têm uma
coisa que eu invejo.
Que mais não seja, os humanos têm o bom senso de morrer.


Escrito por Ademir às 17h51
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DA DESCOBERTA DOS SENTIMENTOS

Jean du Boisberranger

Exatamente como houve um primeiro instante em que alguém
esfregou dois pedaços de pau para criar uma faísca, houve uma
primeira vez para o sentimento da alegria e uma primeira vez
para a tristeza (...) O desejo nasceu cedo, como o arrependimento.
Quando a obstinação foi sentida pela primeira vez, ela despertou
uma reação em cadeia, criando o ressentimento de um lado, e a
alienação e a solidão de outro.
(...)
Contrariando a lógica, o sentimento de surpresa não nasceu de
imediato. Surgiu somente depois que as pessoas tiveram tempo
suficiente para se acostumar às coisas como elas eram.
(...)
Mesmo hoje, ainda não existem todos os sentimentos possíveis.
Restam aqueles que se situam além da nossa capacidade ou da
nossa imaginação. De tempos em tempos, quando uma peça
musical que ninguém jamais escreveu, ou um quadro que ninguém
jamais pintou, ou alguma outra coisa impossível de prever, penetrar
ou mesmo descrever acontece, um novo sentimento se introduz no
mundo. E então, pela milionésima vez na história do sentimento, o
coração emerge e absorve o impacto.
 
A história do amor, Nicole Krauss.


Escrito por Ademir às 19h40
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Peter Dazeley

Admiro os que, com material tão bruto, conseguem
extrair profunda poesia.
Patativa do Assaré, poeta popular nordestino morto
com mais de 90 anos, tinha esse ofício.

 
 
Sou matuto sertanejo,
Daquele matuto pobre
Que não tem gado nem queijo
Nem oro, prata, nem cobre
Sou sertanejo rocêro,
Eu trabalho o dia intero,
Que seja inverno ou verão
Minhas mão é calejada,
Minha péia é bronzeada
Da quintura do sertão

Por força da natureza,
Sou poeta nordestino,
Porém só canto a pobreza
Do meu mundo pequenino
Eu não sei cantá as gulora,
Também não canto as vitora
Dos herói com seus brazão,
Nem o má com suas água...
Só sei cantá minhas mágua
E as mágua de meus irmão

Canto a vida desta gente
Que trabaia inté morrê
Sorrindo, alegre e contente,
Sem dá fé do padecê,
Desta gente sem leitura,
Que, mesmo na desventura,
Se sente alegre e feliz,
Sem nada sabê na terra,
Sem sabê se existe guerra
De país contra país

Cabôco que não cubiça
Riqueza nem posição
E nem aceita a maliça
Morá no seu coração
Cabôco que, nesta vida,
Além da sua comida,
O que mais estima e qué,
É a paz, a honra e o brio,
O carinho de seus fio,
E a bondade da muié

E assim, na sua paleja,
Com a famia que tem,
Não inveja nem deseja
O gozo de ninguém
Mas, por infelicidade
Contra seu gosto e vontade,
Munta vez, o pobre vê
A muié morrê de parto,
Gemendo dentro de um quarto,
Sem ninguém lhe socorrê

Morre aquela criatura,
Depois, a pobre coitada,
No rumo da sepultura,
Vai numa rede imbruiada
Um adjunto de gente
Uns atrás, ôtros na frente
Num apressado rojão,
Quando um sorta, o ôtro pega:
É assim que se carrega
Morto pobre, no sertão
Fica, o viúvo, coitado!
De arma triste e dilurida,
Para sempre separado
Do mió de sua vida,
Mas, porém, não percebeu
Que a sua muié morreu,
Só por fartá um dotô
E, como nada conhece,
Diz, rezando a sua prece:
Foi Deus que diterminou!

Pensando assim desta forma,
Resignado, padece;
Paciente, se conforma
Com as coisa que acontece
Coitado! Ignora tudo,
Pois ele não tem estudo,
Também não tem assistença
E por nada conhecê
Em tudo o camponês vê
O dedo da providença

(Vida sertaneja, Patativa do Assaré)




Escrito por Ademir às 20h47
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TALVEZ O VENTO SAIBA

Megumi Takamura

Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.

Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.

Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.

Ivan Junqueira



Escrito por Ademir às 11h33
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UM POEMA DE EMILY DICKINSON

Raul Touzon

Para encher um vazio
Ponha de volta aquilo que o causou.
Baldado cobri-lo
Com outra coisa - sua boca vai mais se escancarar -
Não se pode soldar o abismo
Com ar.
 
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes


Escrito por Ademir às 20h42
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O FLORIR

joSon

O que não pode florir no momento certo

acaba explodindo depois.

(O último vôo do flamingo, Mia Couto)



Escrito por Ademir às 19h53
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JARDIM TEXTIL, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, Cinema e vídeo
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